Manuel Neto dos Santos

 

 

(Portugal)

 

 

 

1

 

Metade noite, metade luz; assim sou eu, a prata estranha como o mar ancião; a minha alma é densa de matizes do oceano com farpas de sangue, quando já o tinha visto muitas vezes na bondade pura da madrugada.

 

Eis o grito intacto, o breve rasto da memória que persigo.

 

Metade noite, metade luz… com o brilho de um pássaro nascido do sol.

 

Entre as pedras duras fechadas da noite, temos que entregar as chaves, quando na minha alma soa o tanger de longínquo tambor.

 

Entre as duras pedras fechadas da noite, o voo das pombas perturbadas; tenho firmes as mãos para acariciar o teu corpo.

 

 

 

2

 

Saio para os poemas, como os camponeses para as suas fazendas. Cultivo a ilusão ao compasso dos meus olhos e ao som destes meus sonhos.

Saio para os poemas como as aves migratórias na íntima sensação de estar onde semear nada mais é do que quedar-se a contemplar o gozo que cresce, perante os exuberantes vergéis.

Saio para os poemas… Pois o meu sangue tem a música de envelhecidos papéis.

 

 

 

3

 

Oiço o que me dizes mas não com os ouvidos do meu corpo. Durmo sobre o espanto, com a tinta da surpresa e da plenitude, como perfumes sensuais me desenham, do cisne, a tua grácil majestade.

 

Oiço o que me dizes, mas não com os ouvidos do meu corpo pois saio das minhas cavernas como, das rosas sangrentas, sai a voz melosa das abelhas.

 

Nasço defronte das margens do meu pranto, como sulino que sou, nesta nudez, quando se acercam de mim as palavras e um sol radioso ascende até aos meus lábios, alheio aos meus desejos.

 

Nasço defronte das margens do meu pranto, que se estende até ao horizonte, e tenho a luz do céu, num eco cobiçando o meu sonho, um eco que me atravessa…pela noite.

 

 

 

 

 

 

 

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BIO

 

Manuel Neto dos Santos. Poeta, actor, declamador, tradutor. Nasceu em Alcantarilha (Silves-Algarve) a 21 de Janeiro de 1959. Activista cultural desde a adolescência. Figura incontornável na moderna poesia portuguesa. Autor de importante e multifacetada obra poética, grane parte dela ainda inédita. Nas 20 obras já editadas, espelha-se a sua essência lírica e telúrica, remetendo-nos para uma clara e marcada ascendência arábico-andalusa, nos claros sensualismo, ritmo e lumínosidade narrativos. A riqueza de todo um léxico linguístico onírico, na frescura de uma voz tão livre, única, quanto universal.“ É hoje presença maior da poesia portuguesa”. Colaborador de inúmeras revistas de poesia, tanto em Portugal como em Espanha. Traduziu obras “ABISSAIS”, de Pedro Sánchez Sanz, “CADERNOS DE LISBOA”, Daniel García Florindo, “POR DETRÁS DOS OLHOS”, Silvia Tocco e “SERES QUEBRADIÇOS”, de Rocío Hernández Triano.

 

 

DO AUTOR

(Obra édita)

 

 

O FOGO, A LUZ E A VOZ-1988

ATALAIA-1989

TROVAS DE UM HOMEM DA TERRA-1991

NO PAÍS DE AMÁLIA-1992

DE DEUS A ALGAZARRA DE SILÊNCIOS

(VIDA E OBRA DE JOÃO DE DEUS) -1996

IDÍLIOS DE AL-BUHERA-1996

TIMBRES-1999

SUBSÍDIOS PARA A HISTÓRIA DA POESIA DO ALGARVE

SÉCS XI-XX, 2000

UMABEL, OU O ANJO DA ILHA AZUL, 2000

(C. D de declamação sobre obra homónima)

ÍDOLA-2002

VERSOS DE REDOBRE (à memória de João de Deus) – 2004

SAFRA, 2011

SULINO, 2012

CLAVES DO SOL E DA LUA, 2013

O CORPO COMO NUDEZ, 2014

O VIANDANTE DAS PALAVRAS (bio-FOTO-grafia),

(Edição comemorativa de 25º anos de dicoes)- 2014

AURORA BOREAL AO SUL, 2015

CÍRCULO DE FOGO, 2016

PASSIONÁRIO, 2016

SANGRE DE NUBES-SANGUE DE NUVENS (BILINGUE), 2018

INSTINTO (ANTOLOGÍA BREVE) Diverso. Col de poesía nº 6. Sevilha 2018

NO PRELO:

OXÝS

ÍMPETO, NUM CLARO GRITO

TEIMOSA MARÉ (bilingue)

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