Luís Miguel Nava

 

 

(Portugal)

 

 

 

O Grito

 

Corria pela rua acima quando a súbita explosão dum grito o fez parar instantaneamente. Todo o seu corpo estremeceu. O que ele desde sempre receara acabara de ocorrer: algures, nesse momento, uma caneta começara a deslizar sobre uma folha de papel, dando assim corpo àquele grito que de há muito, como as esculturas no interior da pedra, se mantinha na expectativa desse simples gesto dum escritor para atingir a realidade. Tapou os ouvidos com as mãos. O grito mais não era que um sinal, mas o que esse sinal lhe transmitia deixava-o aterrado. Acabara de ser posta a funcionar uma engrenagem que a partir de agora nada nem ninguém, e muito menos ele, iria alguma vez poder travar, um mecanismo de que ele próprio iria inapelavelmente ser a maior vítima. Mais tarde ou mais cedo isso teria de se dar, mas agora que, sem qualquer aviso prévio, se soubera propulsado para outra dimensão da sua vida, como se os fios que a governavam tivessem repentinamente mudado de mãos, o facto de há longo tempo o pressentir não o impediu de olhar à sua volta com estranheza, uma estranheza que antes de mais nascia de tudo à primeira vista ter ficado como estava, desafiadoramente incólume, intacto, familiar. A linha do seu destino confundir-se-ia doravante com a que, sabe-se lá onde, uma caneta ia traçando no papel, página após página, mas nada na expressão dos prédios ou nos carros que indiferentemente continuavam a sulcar as ruas parecia indiciar que, dentro ou fora dele, algo se houvesse transformado ao ponto de o seu quotidiano disso se vir a ressentir. Após alguns segundos, retomou a direcção em que seguia, já não correndo mas imprimindo, ainda assim, um certo à-vontade à sua marcha, muito embora desde logo lhe fosse mais ou menos evidente que, a cada um dos seus passos subsequentes à audição do grito, qualquer coisa se inscrevia dentro de si mesmo, um número, uma cifra, uma palavra susceptível de um dia se vir a converter num utensílio graças ao qual também aquele que bem no fundo de si próprio se esforçava por chegar à realidade poderia finalmente abrir caminho, rompendo através da massa do seu sangue e dos seus músculos do mesmo modo que ele através da multidão que o fim da tarde ia entretanto aglomerando nos passeios. Mas em que língua isso seria?

 

Luís Miguel Nava, en Vulcão

 

 

 

 

 

 

 

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BIO

 
Luís Miguel de Oliveira Perry Nava (Viseu, 29 de Setembro de 1957Bruxelas, 10 de Maio de 1995) foi um escritor português. Era bisneto de José Bressane de Leite Perry, político da monarquia constitucional e visconde de Leite Perry.

Foi considerado uma das revelações mais importantes na poesia portuguesa da década de 1980.

O seu primeiro livro foi publicado em 1974 e intitulava-se Perdão da Puberdade, que o autor nunca incluiu na sua bibliografia activa.

Em 1975, conheceu Eugénio de Andrade e decidiu destruir tudo o que tinha escrito até então, está assim explicado qual o motivo da atitude anterior.

Em 1978, recebeu o Prémio Revelação da Associação Portuguesa de Escritores com a obra Películas, editada em 1979.

Em 1980, terminou a licenciatura em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Entre 1981 e 1983 foi assistente nessa mesma Faculdade.

Em 1983, partiu para a cidade de Oxford como leitor de português e, passados três anos concorreu a um lugar de tradutor da então Comunidade Económica Europeia. Ganha o concurso e instala-se em Bruxelas em 1986. Em 1995, foi encontrado morto no seu apartamento, brutalmente assassinado por um parceiro de ocasião.

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