Daniel D. Marin

 

 

(Romênia)

 

 

A Menina o.

 

 

No Tapete

 

A menina o. está no tapete

De olhos fechados. Quando expira

Algo tranquilizador rodeia-lhe as mãos

Tem-nas apertadas nos joelhos.

Pode ver o que ninguém

Pode imaginar pode porém

Deslizar, sem querer, para uma gruta com

Imensos animais de um outro tempo.

 

Se abrisse os olhos

Com segurança brincaria à vontade

Com os animais imaginários

Se não fosse assim tranquila dissipar-se-iam

Das suas mãos e o tapete

Desceria lentamente pela margem

De um abismo.

 

 

 

Como um Pecado

 

A menina o. não saiu de

Casa durante três dias. Está pensativa

No tapete, bebe muito café e de vez em quando

Fuma. Se abrisse

A janela o ar gelado do exterior

Filtrar-se-ia no seu coração como um pecado.

 

 

 

Embrião

 

A caminho do cemitério uma senhora

Diz à menina o. com uma voz

Triste que Deuz a ama muito

E que a espera. A menina o. ri-se

E entra pela alameda estreita

Lendo atentamente cada epifácio

 

De vez em quando lembra-se

Do que lhe diz a senhora e suavemente

Leva a mão à boca para esconder o sorrizo

Agora está à frente de uma campa vazia

E continuando a olhar para baixo, pouco a pouco,

Os membros e depois todo o seu corpo poderiam tornar-se inertes

E deslizar para o buraco

 

No entanto lá em baixo a menina o. sentiu-se

De tal modo calma como se fosse um embrião

Num útero mole e quente.

 

 

 

Um jogo Novo

 

Quando acorda a menina o. olha-se

Ao espelho com atenção. O espelho turva-se

E reflecte uma figura redonda de uma menina

Com grandes olhos húmidos. A menina o.

Alegra-se, sorri calorosamente e pergunta

 

À menina com se chama. A menina leva

O dedo à boca e sussurra aos ouvidos

Da menina o. que tinha acabado de aprender

Um novo jogo mas que primeiro tinha de

Ir a casa buscar a pasta.

 

A menina o. leva o dedo à boca

E procura em cima da cama. Depois de

Apenas dois minutos tira uma pasta poeirenta

E da pasta tira triunfante um

Caderno de ditados onde se encontrava escrito com letras grandes

E tortas que hoje falta à escola pela

Primeira vez porque vai aprender

Um jogo novo.

 

 

 

 

 

 

O Principezinho

 

O principezinho mudou-se para o prédio

Do outro lado da rua. Todas as manhãs

Observa-a com a luneta como vai ao quiosque

Comprar leite e tabaco.

 

Durante a noite o principezinho

Transforma-se num besoiro

E vai até ao quarto dela.

Certamente a menina o. não sabe muito bem que ele

É o principezinho mas gosta de o observar

Muito atenta quando faz alguns looping

De mestre no ar.

 

A menina o. acredita com toda a sua força que

Numa bela manhã deixará de

Ir ao quiosque comprar

Leite e tabaco, em vez disso irá ficar em casa

No seu quarto à semelhança do principezinho

E irão ficar juntos todo o dia

A verem com a luneta, sucessivamente,

Cada homem grande.

 

 

Traduzido por Irina Fonseca

 

 

 

 

 

 

 

 

_______________________________

 

 

Daniel D. Marin é um poeta romeno nascido a 1981. Estreou-se com o volume de poesia Hora de Ponta (Oră de vărf, 2003) com o qual ganha o Prémio de Poesia do Festival Nacional “Duiliu Zamfirescu” em 2003 e é ainda nomeado para o Prémio Nacional de Poesia “Mihai Eminescu” – secção Obra-prima (o mais prestigiado prémio literário de estreia da Roménia) em 2004. Em 2008 publica Assim Como Foi (Aşa cum a fost) e em 2009 Levei-o à Parte e Disse-lhe (L-am luat deoparte şi i-am spus) pelo qual recebe o Prémio “Marin Mincu” (o mais importante prémio literário da Roménia para autores com mais de 35 anos) em 2010. Fez parte da realização de rubricas e inquéritos literários sobre poesia contemporânea para diversas revistas romenas e participou em leituras públicas na Espanha e na Alemanha. É o autor da antologia Poesia Anti-utópica. Uma Antologia dos poetas romenos se 2000 (Poezia antiutopică. O antologie a douămiismului poetic românesc, 2010), a primeira antologia retrospectiva da geração de 2000.

 

http://danieldmarin.wordpress.com/

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